Plano Diretor de São Paulo 2029: o que pode mudar?

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Plano Diretor de São Paulo 2029 começa a entrar no debate. Entenda o que a revisão pode representar para incorporadoras e novos projetos.
Plano Diretor de São Paulo 2029

Plano Diretor de São Paulo 2029 começa a entrar no debate

A próxima revisão do Plano Diretor de São Paulo 2029 ainda está a alguns anos de distância, mas uma discussão importante para incorporadoras, arquitetos e profissionais do desenvolvimento imobiliário já começou: que tipo de cidade São Paulo pretende construir nas próximas décadas?

O assunto ganhou espaço durante a Convenção Secovi-SP 2026, no painel “O que queremos para São Paulo?”, acompanhado presencialmente pelo Portal VGV.

A discussão partiu de uma mudança de perspectiva. Em vez de olhar para o Plano Diretor apenas por meio de coeficientes de aproveitamento, potencial construtivo, adensamento ou verticalização, os participantes defenderam que a próxima revisão também considere aquilo que acontece no nível da rua.

Calçadas. Arborização. Fachadas ativas. Comércio. Mobilidade. Segurança. Espaços de convivência. E, principalmente, a relação entre os novos empreendimentos e a cidade ao seu redor.

Para o incorporador, essa discussão importa porque a legislação urbana não determina apenas quanto pode ser construído em um terreno. Ela também influencia que produto pode ser desenvolvido e como esse empreendimento se relacionará com a cidade.

Da quantidade construída para a qualidade da cidade

O painel foi mediado por Roberta Simeoni, diretora de Urbanismo do Secovi-SP, e reuniu Claudio Bernardes, vice-presidente do Secovi-SP; Elisabete França, secretária municipal de Urbanismo e Licenciamento de São Paulo; Gianfranco Vannucchi, sócio da Königsberger Vannucchi; Marcelo Morettin, sócio do escritório Andrade Morettin; e Rafael Marengoni, designer urbano sênior do escritório Gehl.

Logo na abertura, Roberta colocou uma provocação que ajudou a conduzir toda a conversa: as pessoas não experimentam a cidade por meio dos parâmetros urbanísticos.

Elas experimentam calçadas, praças, parques, esquinas, comércio de bairro, térreos dos edifícios e os caminhos que percorrem todos os dias.

A discussão sobre o Plano Diretor de São Paulo 2029, portanto, tende a envolver não apenas quanto a cidade pode crescer, mas como esse crescimento será percebido por quem vive nela.

Essa mudança de olhar pode parecer conceitual, mas chega diretamente ao desenvolvimento imobiliário.

Plano Diretor de São Paulo 2029 - palestrantes

O térreo do empreendimento também constrói cidade

Um dos temas que apareceram diversas vezes durante o painel foi a relação entre o empreendimento privado e o espaço público.

O arquiteto Marcelo Morettin apresentou exemplos de projetos que buscaram criar maior integração entre edifício e cidade, com praças, térreos permeáveis, marquises e até passagem pública conectando ruas.

Em um dos casos apresentados, em Pinheiros, a proposta foi permitir uma travessia pelo próprio empreendimento, criando uma galeria entre duas vias.

A ideia ajuda a mostrar uma possível mudança na forma de pensar o produto imobiliário.

O térreo deixa de ser apenas a base do edifício e passa a ter papel na experiência urbana ao redor dele.

Fachada ativa, fruição pública, largura das calçadas, arborização e permeabilidade começam a fazer parte da discussão sobre o próprio produto.

Fachada ativa precisa funcionar além da legislação

O painel também mostrou que criar uma regra não significa necessariamente produzir uma boa cidade.

Claudio Bernardes chamou atenção para a experiência das fachadas ativas, instrumento já utilizado pelo planejamento urbano paulistano.

Na prática, espaços comerciais criados para ativar o térreo de determinados empreendimentos nem sempre encontram uma operação compatível com a realidade daquela rua.

Uma loja de conveniência, uma pequena padaria ou um serviço de bairro podem fazer sentido para determinado local, mas o custo daquele espaço comercial pode inviabilizar justamente os usos capazes de gerar movimento no nível da rua.

Essa discussão pode ganhar relevância no Plano Diretor de São Paulo 2029.

Para o mercado imobiliário, o desafio será encontrar mecanismos que estimulem bons espaços urbanos sem criar soluções padronizadas que funcionem apenas no papel.

Plano Diretor - Gianfranco Vannucchi

Quando a legislação começa a desenhar o edifício

Outro ponto particularmente relevante para incorporadoras apareceu na fala do arquiteto Gianfranco Vannucchi.

Ao discutir a arquitetura recente de São Paulo, ele chamou atenção para o quanto as regras urbanísticas acabam interferindo no desenho dos próprios empreendimentos.

Questões relacionadas a áreas computáveis e não computáveis, por exemplo, podem gerar incentivos que se repetem em diferentes projetos e ajudam a produzir edifícios cada vez mais semelhantes.

A provocação é importante.

Toda regra urbanística produz algum tipo de comportamento econômico.

Quando determinada solução aumenta ou reduz potencial construtivo, ela inevitavelmente entra na conta de viabilidade do terreno.

Por isso, discutir o Plano Diretor de São Paulo 2029 também significa discutir quais comportamentos a cidade pretende estimular nos próximos ciclos de desenvolvimento imobiliário.

A cidade vista na escala de quem caminha

Do escritório Gehl, Rafael Marengoni apresentou uma lógica de planejamento urbano baseada em uma sequência simples:

vida → espaços → edifícios.

Primeiro se observa como as pessoas vivem e utilizam determinado lugar. Depois se pensa o espaço urbano necessário para essas atividades. Somente então entram os edifícios.

Essa lógica coloca o pedestre no centro da discussão.

Segurança, conforto, iluminação, arborização, mobilidade e possibilidade de permanecer nos espaços públicos deixam de ser elementos acessórios e passam a fazer parte da qualidade da cidade.

Gianfranco Vannucchi também destacou problemas aparentemente simples, como a qualidade das calçadas e a iluminação no nível do pedestre.

A mensagem comum é que uma cidade não é percebida a partir do skyline.

Ela é percebida a aproximadamente 1,70 metro do chão.

O que isso significa para uma incorporadora?

Para uma incorporadora, acompanhar o debate do Plano Diretor de São Paulo 2029 desde agora é importante porque alterações urbanísticas interferem diretamente na lógica de desenvolvimento dos terrenos.

Coeficiente de aproveitamento, usos permitidos, fachadas ativas, fruição pública, áreas computáveis, mobilidade e incentivos urbanísticos podem alterar tanto a viabilidade financeira quanto a concepção do produto.

Mas existe uma discussão ainda maior. Se a próxima revisão realmente ampliar o olhar para a escala humana, o mercado poderá ser cada vez mais provocado a pensar não apenas quanto cabe naquele terreno, mas o que aquele empreendimento entrega para o lugar onde será implantado.

Isso muda a pergunta de desenvolvimento.

Em vez de apenas:

“Qual é o potencial construtivo deste terreno?”

pode ganhar força outra:

“Que produto faz sentido construir aqui e como ele melhora sua relação com a cidade?”

É justamente nessa etapa que o Grupo VGV atua ao lado das incorporadoras, conectando leitura de mercado, vocação do terreno e estratégia para apoiar o desenvolvimento de produtos imobiliários mais coerentes com a demanda e com o potencial de cada localização.

A leitura do Portal VGV

O mercado imobiliário passou décadas aprendendo a interpretar legislação para extrair potencial de terrenos.

Esse conhecimento continuará sendo fundamental.

Mas o debate apresentado na Convenção Secovi-SP sugere que a próxima etapa pode exigir algo além.

Será preciso combinar viabilidade imobiliária e qualidade urbana.

O Plano Diretor de São Paulo 2029 ainda terá um longo processo de discussão. O próprio Secovi-SP já iniciou as chamadas Jornadas Urbanísticas como preparação para esse debate, colocando temas relacionados à experiência urbana e à escala humana no centro das conversas do setor.

Para incorporadoras, acompanhar essa discussão desde o início pode ser mais importante do que esperar a nova legislação ficar pronta.

Porque um Plano Diretor não muda apenas a cidade.

Ele muda a lógica dos terrenos, influencia produtos e redefine parte das decisões que determinarão o que será construído nos anos seguintes.

E talvez a principal provocação deixada pelo painel seja justamente essa:

o empreendimento termina na divisa do terreno ou também é responsável pela cidade que ajuda a construir?

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