A Convenção Secovi-SP 2026 começou nesta quarta-feira, 26 de agosto, em São Paulo, colocando a habitação no centro das primeiras discussões sobre os rumos do mercado imobiliário.
A abertura da 23ª edição do evento reuniu o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o prefeito da capital, Ricardo Nunes, e o presidente do Secovi-SP, Jorge Cury, além de representantes do poder público e lideranças do setor.
Entre balanços de programas habitacionais, investimentos públicos e discussões sobre crédito, uma mensagem ganhou força: a habitação econômica ocupa hoje uma parcela determinante do mercado imobiliário paulistano, mas sua continuidade depende diretamente das condições de financiamento e da preservação das fontes de recursos.
70% dos lançamentos estão no Minha Casa Minha Vida
Um dos números de maior impacto da abertura foi apresentado por Jorge Cury. Segundo o presidente do Secovi-SP, atualmente cerca de 70% dos lançamentos e das vendas de moradias na cidade de São Paulo estão inseridos no segmento Minha Casa, Minha Vida.
Os levantamentos recentes da própria entidade ajudam a dimensionar essa participação. Em maio de 2026, 70% das unidades lançadas e 71% das unidades vendidas na capital estavam enquadradas no MCMV, considerando as Faixas 1, 2 e 3 utilizadas pela Pesquisa do Mercado Imobiliário do Secovi-SP. Foram 9.152 unidades lançadas e 7.105 comercializadas somente naquele mês.
Quando o período é ampliado, o protagonismo continua evidente. Nos 12 meses encerrados em junho, São Paulo lançou 143,7 mil unidades residenciais, sendo 67% delas enquadradas no programa. No primeiro semestre de 2026, os lançamentos do MCMV cresceram 31%, enquanto o segmento de médio e médio-alto padrão apresentou queda de 28%.
Os números ajudam a explicar por que habitação e funding ocuparam tanto espaço na abertura da Convenção Secovi-SP 2026.
FGTS entra no centro da discussão
Ao falar sobre o cenário atual, Jorge Cury defendeu a preservação dos recursos do FGTS destinados à habitação.
Para o presidente do Secovi-SP, iniciativas que direcionam esses recursos para outras finalidades podem comprometer uma das principais fontes de financiamento da habitação social no País.
A preocupação ganha outra dimensão diante da participação atual do Minha Casa, Minha Vida no mercado.
Se aproximadamente sete em cada dez unidades lançadas em determinados períodos na capital estão dentro do programa, discutir a disponibilidade de funding deixa de ser apenas uma questão relacionada à política habitacional.
Passa a ser também uma discussão sobre produção, vendas e capacidade de crescimento do próprio mercado imobiliário.
Cury também apontou o atual nível dos juros como um dos principais obstáculos ao setor, tanto pela restrição ao crédito de longo prazo para as famílias quanto pelo impacto sobre a capacidade de investimento das empresas.

Ricardo Nunes destaca avanço da habitação social
O prefeito Ricardo Nunes também apresentou números relacionados à produção habitacional da cidade.
Segundo os dados apresentados por ele durante a Convenção Secovi-SP 2026, a participação de Habitação de Interesse Social, HIS, passou de 42% em 2023 para 70% em 2026.
Esse indicador é diferente do dado apresentado por Jorge Cury.
Enquanto Cury se referiu à participação do Minha Casa, Minha Vida nos lançamentos e vendas de moradias, Nunes tratou especificamente da participação de HIS nos números apresentados pela Prefeitura.
O prefeito também destacou a combinação de diferentes programas habitacionais que atuam na cidade: o Minha Casa, Minha Vida, o Casa Paulista, do Governo do Estado, e o Pode Entrar, da Prefeitura de São Paulo.
Governo de São Paulo apresenta balanço habitacional
Tarcísio de Freitas apresentou durante a abertura um balanço das ações estaduais voltadas à habitação.
Segundo o governador, o Estado chegou a 90,5 mil moradias entregues durante o atual mandato e possui outras 117 mil unidades em construção. Ele também destacou o papel da Carta de Crédito Imobiliário, CCI. De acordo com os números apresentados, R$ 1,2 bilhão aplicado nessa modalidade ajudou a mobilizar aproximadamente R$ 37 bilhões em investimentos privados.
A fala reforçou uma característica que apareceu em diferentes momentos da abertura: a combinação entre recursos públicos, financiamento e participação da iniciativa privada como caminho para ampliar a produção habitacional.
Habitação cresce, mas o desafio não termina na produção
Os números apresentados na abertura mostram uma escala significativa de produção. Mas também levantam uma questão importante para o mercado.
O crescimento da habitação econômica ocorre justamente em um ambiente marcado por juros elevados, maior seletividade no crédito e mudanças importantes na composição da demanda.
O MCMV cresceu 31% em unidades lançadas no primeiro semestre de 2026, enquanto segmentos de médio e médio-alto padrão recuaram 28%. Nas vendas, o programa avançou 17%, enquanto os demais segmentos analisados apresentaram queda.
Isso significa que o crescimento agregado do mercado precisa ser interpretado com atenção.
Os números positivos não necessariamente indicam que todos os segmentos estão vivendo o mesmo ciclo.
Pelo contrário, mostram um mercado cada vez mais segmentado.
O que os 70% dizem sobre o mercado de São Paulo?
Para o Portal VGV, talvez esse seja um dos principais pontos de reflexão deixados pela abertura da Convenção Secovi-SP 2026.
Quando aproximadamente 70% dos lançamentos de determinado período estão enquadrados no Minha Casa, Minha Vida, não estamos falando apenas sobre o sucesso de uma política habitacional. Estamos falando sobre uma mudança relevante na composição do mercado imobiliário da maior cidade do País.
Produto, preço, renda, crédito, localização, disponibilidade de terrenos e capacidade de enquadramento passam a exercer influência ainda maior sobre as decisões das incorporadoras.
Ao mesmo tempo, aumenta a importância de acompanhar a sustentabilidade das fontes de financiamento que permitem que esse mercado continue funcionando.
É por isso que a defesa do FGTS feita durante a abertura não pode ser analisada isoladamente. Ela está diretamente relacionada ao tamanho que o segmento econômico assumiu dentro da produção imobiliária paulistana.
Convenção Secovi-SP 2026 continua com debates do setor
A programação da Convenção Secovi-SP 2026 reúne discussões sobre panorama econômico, mercado imobiliário, crédito, programas habitacionais, novos produtos, legislação, desenvolvimento urbano e segurança jurídica.
Mais do que apresentar números, a abertura mostrou que o setor chega ao segundo semestre diante de uma combinação particular de fatores.
Existe demanda, existe produção, existem programas habitacionais em expansão, mas existem também juros elevados, desafios de financiamento e diferenças importantes de desempenho entre os segmentos.
Nesse cenário, talvez a pergunta já não seja apenas se o mercado imobiliário continua crescendo.
A questão passa a ser onde esse crescimento está acontecendo, o que está sustentando esse movimento e quais condições serão necessárias para que ele continue.
O Portal VGV acompanha a Convenção Secovi-SP 2026 e traz os principais dados, discussões e análises para quem desenvolve, incorpora e vende o mercado imobiliário.
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